No contexto das normas contábeis brasileiras e internacionais, uma dúvida recorrente entre executivos, empresários e investidores é: qual a diferença entre uma combinação de negócios e uma aquisição de ativo? Embora ambas envolvam transferências patrimoniais, elas têm naturezas distintas e implicações relevantes nos registros contábeis e nos efeitos fiscais. Na prática, muitas vezes, pode ser difícil essa distinção.
🏢 O que é uma Combinação de Negócios?
Segundo o Pronunciamento Técnico CPC 15 (R1) – Combinação de Negócios, essa operação ocorre quando uma entidade obtém o controle de um negócio. Entende-se como negócio uma atividade econômica integrada, com capacidade de gerar retornos por meio de insumos, processos e saídas — como produtos ou serviços oferecidos.
Exemplos típicos:
- Compra de uma empresa com operação ativa (clientes, contratos, estrutura, pessoal);
- Incorporação ou fusão entre empresas operacionais;
- Aquisição de controle societário com manutenção da atividade econômica.
Nesses casos, aplica-se o método da aquisição, em que os ativos identificáveis e passivos assumidos são reconhecidos a valor justo, e eventuais diferenças geram o reconhecimento de mais-valia ou menos-valia e ágio por expectativa de rentabilidade futura (goodwill).
Importante: Para que o ágio seja considerado qualificado para amortização fiscal (com efeitos dedutíveis para fins de IRPJ e CSLL), é necessário que o laudo elaborado por perito independente seja protocolado na RFB ou tenha o seu sumário registrado em Cartório de Registro de Títulos e Documentos até o último dia útil do 13º mês subsequente ao da aquisição da participação.
A norma contábil prevê 12 meses para revisão de premissas e remensuração de valores da aquisição. A norma fiscal oferece um mês a mais para ajustar o documento (por isso são 13 meses após a aquisição para protocolo do laudo na RFB ou registro em cartório).
📦 E a Aquisição de Ativo?
Por outro lado, quando a transação envolve apenas ativos isolados ou um grupo de ativos que não constituem, por si só, uma atividade econômica integrada, trata-se de uma aquisição de ativo.
Importante observar: Mesmo que se esteja comprando uma empresa formalmente constituída (um CNPJ), se essa entidade não possuir uma operação ativa e o que está sendo adquirido for, por exemplo, apenas uma licença para operar, o tratamento contábil será o de aquisição de ativo.
Exemplos comuns:
- Compra de uma empresa veículo contendo somente uma licença, marca ou imóvel;
- Aquisição de ativos fixos ou intangíveis, sem estrutura operacional associada;
- Transferência de ativos de uma empresa inativa.
Nesses casos, os ativos são registrados de forma individual, com base em seu custo de aquisição, e passam a ser depreciados ou amortizados conforme as regras contábeis específicas (CPC 27, CPC 04, CPC 01), com efeitos fiscais correspondentes — ou seja, com dedutibilidade fiscal da depreciação ou amortização, quando aplicável.
📑 Diferenças-Chave Resumidas
Aspecto | Combinação de Negócios | Aquisição de Ativo |
Natureza da transação | Aquisição de controle de um negócio | Compra de ativo(s) isolado(s) |
Base contábil | CPC 15 (R1) – método da aquisição | CPCs específicos (CPC 27, CPC 04 etc.) |
Reconhecimento de ágio | Sim, se houver goodwill | Não há reconhecimento de ágio |
Laudo para ágio fiscal | Necessário em até 13 meses | Não se aplica |
Efeito fiscal | Ágio dedutível, se qualificado | Depreciação/amortização dedutível |
📘 Contabilização de uma Combinação de Negócios (Business Combination)
Empresa “A” compra 100% da empresa “B” em 31/12/X1.
Informações:
(i) Data de aquisição: 31/12/X1
(ii) Patrimônio Líquido da empresa “B” na data de aquisição: R$ 200
(iii) Preço pago: R$ 500
(iv) Existe um imóvel na empresa “B” contabilizado por R$ 70, entretanto, o valor justo atribuído é de R$ 100, ou seja, existe uma mais-valia de R$ 30
(v) Identificados ativos intangíveis (carteira de cliente) no valor de R$ 50
Lançamento contábil na empresa “A”:
Débito: Investimento em empresas controladas – R$ 200
Débito: Ativos intangíveis – R$ 50
Débito: Mais-valia – R$ 30
Débito: Ágio por rentabilidade futura – R$ 220
Crédito: Caixa e equivalentes de caixa – R$ 500
O laudo a ser registrado deve conter claramente as premissas e memórias de cálculos que suportem cada um dos valores contabilizados.
Lembrando que a mais-valia deve ser amortizada mensalmente. Deve-se entender a natureza do ativo intangível e via útil estimada para avaliar a amortização contábil e fiscal. O ágio não é amortizado contabilmente, entretanto, deve ser testado anualmente (no mínimo) para avaliar sua recuperabilidade. Importante mencionar ainda que o ágio somente será aproveitado fiscalmente após sua realização por incorporação, fusão ou cisão.
📘 Contabilização de uma Aquisição de Ativo
Empresa “A” compra 100% da empresa “B” em 31/12/X1.
Informações:
(i) Data de aquisição: 31/12/X1
(ii) Patrimônio Líquido da empresa “B” na data de aquisição: R$ 200
(iii) Preço pago: R$ 500
(iv) Empresa “B” tem apenas uma licença especial para operar em seu segmento, ou seja, não tem ainda clientes, contratos, fluxos de caixa, ou seja, não constitui um negócio.
Lançamento contábil na empresa “A”:
Débito: Investimento em empresas controladas – R$ 200
Débito: Ativo intangível – R$ 300
Crédito: Caixa e equivalentes de caixa – R$ 500
Note que nesse caso, apesar de se estar adquirindo uma empresa (um CNPJ), não há negócio constituído. A empresa “B” é apenas um veículo contendo uma licença para operar.
Deve-se entender a natureza do ativo intangível e vida útil estimada para avaliar a amortização contábil e fiscal.
✅ Conclusão
A distinção entre combinação de negócios e aquisição de ativo não é meramente formal — ela influencia diretamente os registros contábeis, a análise de impairment, os efeitos fiscais e as obrigações acessórias.
Avaliar corretamente a natureza da transação é essencial para garantir a conformidade com as normas contábeis e a legislação tributária. Um enquadramento errado pode significar a perda dos benefícios fiscais da transação.
Se sua empresa está em processo de aquisição, incorporação ou reestruturação, o suporte técnico de um time contábil e fiscal especializado é fundamental para evitar riscos e otimizar os efeitos fiscais.
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